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sábado, 24 de outubro de 2015

Nós, um bebê e Buenos Aires.

domingo, 15 de março de 2015

Eu e os blogs sobre maternidade: uma relação conflituosa

Depois de entrar no mundo da maternidade, publicitária conectada 24 horas por dia como sou, é claro que eu iria parar mais dia, menos dia, nos blogs sobre maternidade. Textos escritos por mães que desejam compartilhar suas experiências, estabelecer uma rede de relacionamentos, falar sobre suas visões sobre a criação de filhos e etc. Um universo muito maior que eu podia imaginar, com mais poder de formar opiniões que a minha reles visão de comunicadora já havia sido capaz de refletir em torno do tema.

Se eu pudesse dividi-los em duas categorias eles poderiam ser classificados em: (1) Lifestyle de classe média/alta com filhos e (2) Militância de maternidade ativa. O primeiro não precisa de muitas explicações, né? E é claro que estes eu descartei logo. O segundo tipo em geral fala do empoderamento feminino a partir da maternidade e suas diversas vertentes. Desde o parto até a vivência diária, “uma maternidade em que as mães sejam as responsáveis por suas escolhas, que vivam aquilo que escolheram por refletirem a respeito, sem viver somente as escolhas de outras pessoas. O que hoje buscamos é uma forma de ser mãe que liberte e fortaleça a mulher, que lhe dê autonomia, coragem e que fortaleça sua auto-estima, colocando-a como peça de mudança ativa no mundo.” (Lígia Moreira Sena, Blog Cientista que virou mãe)

Gosto da ideia de viver uma maternidade crítica, reflexiva, libertadora. Para mim a chegada de um filho tem que acrescentar, não limitar a minha visão e possibilidades no mundo. Sou mãe e todo o resto que a experiência feminina me possibilita. Por aqui somos uma equipe: eu e meu esposo trabalhamos para nos conectarmos com as necessidades de nossa filha (nutrição, sono, crescimento cognitivo, amor e segurança) e a ajudamos a se conectar com as necessidades de todos na família. Afinal a vida não precisa acabar com a chegada dela, apenas se adaptar e seguir em frente. Adaptar-se não é simples, mas sempre tem como complicar um pouquinho se a gente se deixar levar e não tiver clareza de princípios. E assim que tenho tentado me constituir enquanto mãe.

Caminhando nestas leituras encontrei muita coisa boa, útil, libertadora, reconfortante, dando especial destaque aos textos reproduzidos de Laura Gutman e sua visão muito humana da maternidade enquanto processo de autoconhecimento. E muita, mas muita coisa radical mesmo, sobre parto (humanizado), amamentação (livre demanda forever), alimentação (contra e a favor de papinhas, BLW, métodos de introdução alimentar), sono (da família e da criança), criação (com apego), disciplina (ou falta dela), slings (benefícios reais, usos contraditórios e crítica excessiva a outros suportes para transporte de bebês), a maternidade em si e seu lugar na constituição da identidade feminina (muitas vezes um papel único e limitador de todo o resto). A ponto de começar a questionar, mas será que a maneira que eu vivo a minha maternidade é adequada? Está fazendo bem para minha filha? Eu não me localizo nestas duas polarizações, e agora? Olha o contrassenso da minha falta de crítica e autoafirmação!

Em meio a estas angústias (reais!), um pouquinho de auto-análise e um bate-papo com uma amiga jornalista, também mãe de uma bebê, que compartilhava desta mesma agonia, analisamos o fato enquanto comunicadoras, para encontrar na teoria algo que justificasse a nossa relação com estes textos.

Num mundo de cultura midiática, já diria Douglas Kellner, aonde a revolução tecnológica modifica paulatinamente o trabalho e o lazer, o conteúdo propagado pelos canais de comunicação tradicionais ou não, como os blogs, acabam por ganhar imensa importância na constituição da identidade dos indivíduos. A cultura veiculada pela mídia transformou-se numa força dominante de socialização: suas imagens e celebridades (como as super top mothers dos blogs) substituem a família, a escola e a igreja como árbitros de gosto, valor e pensamento, produzindo novos modelos de identificação e imagens vibrantes de estilo, moda e comportamento.

“com o advento da cultura da mídia, os indivíduos são submetidos a um fluxo sem precedentes de imagens e sons dentro de sua própria casa, em um novo mundo virtual de entretenimento, informação, sexo e política está reordenando percepções de espaço e tempo, anulando distinções entre realidade e imagem, enquanto produz novos modos de experiência e subjetividade”. (KELLNER, 2002)

Estes modelos de experiência, certamente ajustados e editados, modificados e representados, portanto vibrantes de estilo, pareciam mais interessantes que a maternidade real aqui de casa. Além disso, num mundo pós-moderno, faz sentido opiniões polarizadas, inflexíveis e binárias do mundo? Olha só que coisa! Eu comunicadora, caí na pegadinha do mecanismo de funcionamento dos produtos midiáticos e me esqueci de questioná-los. 

São apenas pontos de vista, não são a verdade. Por mais que eu ainda me sinta meio solitária neste meu caminho do meio, é o meu caminho. Me faz feliz, buscamos viver harmonicamente a reorganização de nossas vidas com a chegada de um pacotinho de amor e suas surpresas, como uma amiga outro dia nos lembrou (Ju Prigucci, Embalanço), aprendo e desaprendo o tempo todo com a leitura dos blogs, dos livros e as conversas com gente aberta a viver a experiência de ser mãe, sem ter que carregar uma bandeira ideológica o tempo todo.

E viva a análise, né não minha gente?!


Ps: não tenho a intenção de transformar este blog em um espaço para falar sobre maternidade. Mas são reflexões de uma Diva que agora é mãe, então o assunto vem à tona, né?!

Referências:

KELLNER, D. A cultura da mídia – estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pósmoderno. Trad. Ivone Castilho Benedetti. Bauru: Edusc, 2002.

SENA, Lígia M. http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/01/maternidade-ativa-maes-para-um-mundo.html