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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Este post não é sobre os ciganos, é uma mensagem de ano novo


Hoje eu acordei pensando na minha pesquisa de mestrado e em tudo que ela me ensinou. Ela tem como tema central a investigação dos recursos utilizados por diretores de cinema brasileiros para representar os ciganos no documentário brasileiro. Minha hipótese se comprovou. O método mais empregado para construção das imagens analisadas é a estereotipia. No caso dos ciganos, estereótipos negativos, não discutidos ou questionados nos 400 anos da presença deles em terras brasileiras, apenas reforçados pelo cinema como se aquilo fosse a única verdade em torno do tema. São imagens que dizem da submissão feminina, o nomadismo selvagem, o ocultismo e a leitura de sorte, a sujeira e a falta de higiene, o marginal e o ladrão.

O estereótipo funcionaria como “teorias do senso comum”, que laboram para tentar abarcar toda a complexidade de um objeto, visando facilitar a comunicação e orientar o relacionamento entre indivíduos e acabam por intervir no imaginário social acerca de sujeitos ou grupos. O estereótipo enquanto estratégia de redução de toda a variedade de atributos de um povo a alguns atributos essenciais, encoraja um conhecimento intuitivo sobre o outro e ajuda a demarcar fronteiras simbólicas entre o “nós” e “eles”.

E qual o problema disso tudo? Não vou me ater a discutir todas as imagens e as perspectivas sócio-históricas e culturais da pesquisa, por que este post não é para falar disso. Daqui uns dias publico um livro e vocês podem ler detalhadamente as 120 páginas desta investigação. O fato é que estereótipos são aprisionantes, não franqueiam ao outro que estereotipamos a oportunidade de ser diferente daquilo que pensamos sobre ele, não abrimos possibilidade para o encontro, ao intercâmbio, à mudança de nossos paradigmas pessoais e para a surpresa de conhecer aquilo que já pensávamos saber. O problema é que quando pensamos conhecer algo sobre o outro, muitas vezes não estamos dispostos a flexibilizar o olhar, ver de uma nova perspectiva, com uma luz diferente e por fim, surge o preconceito.

Quantas vezes eu nas rodas de amigos, ao expor minhas conclusões e insights da pesquisa ouvi: “Não, mas isso que você relata não é cigano de verdade. Cigano de verdade é assim, é assado. Eu sei! Eu via os ciganos lá no interior, próximo à fazenda da minha avó”. Eu retrucava: “Você conversava com algum deles?” e a resposta quase sempre era: “Não, eu tinha medo. Pavor de cigano!”.

Bem, eu disse que o tema deste post não eram os estereótipos negativos em torno das imagens construídas no Brasil sobre ciganos. Esta postagem é sobre como eu finalmente aprendi sobre o que discutia na teoria e sobre como vivenciei a dor daqueles que estudo à minha maneira. É que de repente me vi vítima de estereótipos criados por pessoas muito próximas de mim. Senti-me encaixotada, sem possibilidade de ação. Como se nada que eu fizesse fora daquele espaço a mim designado fosse legitimado.

Assim como os ciganos, precisei me afastar para me proteger. Montei meu acampamento emocional bem distante da dor, mesmo sendo aquele um lugar desconfortável, sujo e frio, mas pelo menos ele era seguro. Também precisei, como um marginal, me defender com violência, para que respeitassem as minhas fronteiras. Se o respeito não viesse pela compreensão, que pelo menos ele surgisse fruto do medo da minha voz alta! Depois, eu me calei. Como um cigano da cidade, eu me disfarcei, deixei minhas vestes tradicionais no meu baú emocional em casa e me reintegrei à sociedade, disfarçada de pessoa comum, vítima de normose, exatamente da forma como esperavam que eu fosse. Mas quando alguém descobria que eu estava disfarçada, precisava fugir, voltar a ser nômade ou uma nova onda de intolerância poderia me atingir.

Aos poucos e com um certo esforço, fui construindo uma nova forma de viver e de me posicionar de maneira autêntica para não ferir a mim mesma, mas distante o suficiente para que não fosse ferida.

Viver a dor do preconceito, fruto do estereótipo mesmo em escala menor e num âmbito totalmente subjetivo me fez pensar: quantas vezes não agi da mesma forma com as pessoas que amo e as demais que me rodeiam? Quantas vezes não fui capaz de ouvi-las e compreendê-las, pois as coloquei em caixinhas blindadas pelo o que já sabia sobre elas e não as ofertei oportunidade de agirem diferente daquilo que imaginava? Quantas vezes não fui eu a opressora? Fui invadida por uma ressaca moral de uma vida inteira.

Finalmente aprendi o que queria que os outros internalizassem ao ler minha dissertação. Dizem que a gente só é mestre quando aprende a lição, que ninguém ajuda ninguém a chegar a um lugar emocional que desconhece, que a palavra empolga, mas o exemplo é que arrasta...Pois bem, diante disso, posso dizer: peguei meu título de mestre tem alguns meses e não há um ano e meio como imaginava. E se me permitissem uma única recomendação para 2013 eu diria: estendam racionalmente olhos de compreensão e tolerância aos que te cercam. Façam o exercício de serem fraternos e se colocarem no lugar do outro nas próximas 365 oportunidades que teremos pela frente. Exercitando bondade e tolerância é que aprenderemos a ser bons e a amar verdadeiramente.

Feliz 2013!

sábado, 8 de setembro de 2012

Reverência ao Sol




Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, morreu no último dia 25, aos 82 anos. Sua família, em homenagem ao astronauta, proclamou a todos os cidadãos do mundo que se lembrassem dele toda vez que olhassem a Lua. Inevitável: no dia seguinte a essa declaração, minha memória me remeteu àquela carinha galega e sorridente, dentro do imenso capacete.

Mas não deixo de também enxergar um coelho estampado na Lua cheia. Dizem que só os apaixonados são capazes de identificar a criaturinha quando se observa a Lua. Há também os que veem a figura épica de São Jorge montado em seu cavalo e com sua espada em riste. Talvez seja pela lenda do santo que a Lua seja tão associada a casais apaixonados, sonhar acordado e outras suspirices do tipo.

Mas pra mim, o que deveras me desconecta do que quer que eu esteja fazendo somente para contemplá-lo, o que sinceramente me causa um suspiro apaixonado e profundo, magnetizando meu olhar por completo, é o tal do pôr-do-sol.

Nenhum cenário é tão hipnotizante pra mim quanto aquele degradê de tons alaranjados e rosáceos despontando na imensidão azul. Sou capaz de parar o carro num lugar qualquer só para fitar esse espetáculo que diariamente nos é apresentado. E democraticamente, onde quer que estejamos, seja dentro de um carro de luxo, seja por entre as grades de um xilindró, embaixo de uma marquise ou esticado numa rede na praia, podemos admirar essa despedida solene do Sol, recolhendo com ele o que se foi e nos inspirando para o que ainda virá.

Esse é o astro-rei que me enche de suspiros, me dá uma alegria imensa por ter olhos de ver e um nózinho na garganta de agradecimento à Vida e ao Artista que, magicamente, pinta essas nuances de cor e energia todos os dias. Assim, de graça. Escancarado.

E o que me resta é me curvar diante dele. E esperar a Lua.

Por Andrea Lino (declarando seu amor ao céu de Brasília).

terça-feira, 24 de abril de 2012

Hermanos, aqui vou eu!


Então desde que muitas mudanças ocorreram na minha vida um dos pontos identificados em terapia que eu precisava mudar era a rigidez e a mania de planos. O futuro estava totalmente planejado e eu já sabia tudo o que iria acontecer nos próximos 10 anos. Quando meus planos foram frustrados fiquei sem chão. Pois bem, a ordem da vez é não planejar a longo prazo e viver o presente, sem tantas regras.
Eis que minha querida amiga Thaís Saboia (que diga-se de passagem está vivendo o mesmo o que eu, o que tem sido ótimo para as duas compartilhar as angustias) me faz um convite que me força a exercitar a minha nova proposta de vida: alguns dias no inverno rigoroso de Buenos Aires em junho.

Não posso negar que fiquei em um dilema: gastar parte da minha suada poupança do carro numa viagem e enfrentar o frio. Eu sei, essa parte do frio parece ridículo. Mas tenho medo de morrer (literalmente) com os ventos gelados.
Então amores, vou para Buenos Aires! Passagem comprada e agora vendo o que posso usar de roupa para não passar frio e ainda ficar bonita na foto! Mega feliz, meio ansiosa e orgulhosa de mim. Vou viajar com mais um monte de mulher, das quais só conheço a Thaís e a Maíra, outra amiga querida. Aberta a novas amizades, possibilidades e experiências, Hermanos, aqui vou eu!

terça-feira, 13 de março de 2012

Porque não gosto do poema do Vitor Hugo

No dia 8 de março o facebook foi invadido por uma onda poemas, imagens e homenagens às mulheres. Agradeci todas que foram direcionadas para mim. O Dia da Mulher foi criado para que todas as pessoas se lembrem da luta feminina por igualdade de direitos, tal qual estabelece a Constituição Federal.

Mas o que motivou este post foi que por causa desta data relevante acabei tendo acaloradas discussões com alguns amigos (homens).  Um deles soltou frases provocativas só para me irritar, um outro disse que existe sim igualdade no mercado de trabalho e na sociedade, o que não posso concordar. Mas o debate mais acalorado foi com o que postou em seu facebook o poema “O homem e a mulher”, de Vitor Hugo.
Como o poema é grande, não vou analisar frase a frase. Mas vou apenas pontuar alguns versos. Ao final, coloquei na íntegra caso você tenha paciência para lê-lo. Ele inicia assim: “O homem é a mais elevada das criaturas. A mulher é o mais sublime dos ideais. (...) O homem é o cérebro; a mulher é o coração. O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor.”

Lindo. Mas nos coloca na mera condição de enfeites. Incapazes de sermos racionais, pois somos apenas coração. Começo a pensar que então é melhor não gastarmos nosso tempo em universidades, produzindo ciência ou trabalhando na bolsa de valores. Afinal, cérebro foi feito para ser usado apenas pelos representantes do sexo masculino.

“O homem é forte pela razão. A mulher é invencível pelas lágrimas. A razão convence. As lágrimas comovem.” Sério mesmo que vou ter sempre que usar o choro como argumento?! Cada vez que eu quiser me posicionar perante alguém, ao invés de usar a inteligência e meus conhecimentos adquiridos ao longo de 30 anos vou ter que apelar para as lágrimas. Sinto dizer, mas nem chorar na frente dos outros eu gosto!

“O homem pensa. A mulher sonha. Pensar é ter no crânio uma larva. Sonhar é ter na fronte uma auréola.” Mais uma vez nos chamando de burras, ingênuas e lunáticas. Nem vou comentar!

Pulando alguns muitos versos, o poema termina assim: “Enfim, o homem está colocado onde termina a terra. E a mulher onde começa o céu.” Querer nos colocar na condição de anjos terrenos é apenas um pretexto para continuar nos tratando como seres inferiores.

Sinto muito, mas não posso me sentir lisonjeada com isso. Isso não significa que eu não seja feminina e não goste de ser agradada. Pelo contrário. Adoro ser cuidada, receber gentilezas e ser tratada com delicadeza. Mas estes tratamentos são agradáveis a qualquer ser humano. Seja homem ou mulher. Portanto, não me reduza à um mero objeto de decoração.

 Ana Carol

O Homem e a Mulher

Victor Hugo

O homem é a mais elevada das criaturas.

A mulher é o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono.

Para a mulher, um altar.

O trono exalta.

O altar santifica.

O homem é o cérebro; a mulher é o coração.

O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor.

A luz fecunda.

O Amor ressuscita.

O homem é forte pela razão.

A mulher é invencível pelas lágrimas.

A razão convence.

As lágrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos.

A mulher, de todos os martírios.

O heroísmo enobrece.

O martírio sublima.

O homem tem a supremacia.

A mulher, a preferência.

A supremacia significa a força.

A preferência representa o direito.

O homem é um gênio; a mulher, um anjo.

O gênio é imensurável; o anjo, indefinível.

Contempla-se o infinito.

Admira-se o inefável.

A aspiração do homem é a suprema glória.

A aspiração da mulher é a virtude extrema.

A glória faz tudo grande.

A virtude faz tudo divino.

O homem é um código.

A mulher, um evangelho.

O código corrige.

O evangelho aperfeiçoa.

O homem pensa.

A mulher sonha.

Pensar é ter no crânio uma larva.

Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano.

A mulher um lago.

O oceano tem a pérola que adorna.

O lago, a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa.

A mulher é o rouxinol que canta.

Voar é dominar o espaço.

Cantar é conquistar a alma.

O homem é um templo.

A mulher é o sacrário.

Ante o templo nos descobrimos.

Ante o sacrário nos ajoelhamos.

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra.

E a mulher onde começa o céu.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Lazer x Prazer



Não sei quem é o autor do texto, mas gostei muito e coloco aqui para reflexão!
Ana Carol

Eu li em um dos livros do Ruy Castro que, ainda mais legal do que unir o útil ao agradável, é unir o agradável ao agradável. A exaltação do prazer. Há tempos venho ruminando sobre isso. Conheço muitas pessoas que vão ao cinema, a boates e restaurantes e parecem eternamente insatisfeitas. Até que li uma matéria com a escritora Chantal Thomas na revista República e ela elucidou minhas indagações internas com a seguinte frase: "Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer".

Lazer e prazer são palavras que rimam e se assemelham no significado, mas não se substituem. É muito mais fácil conquistar o lazer do que o prazer.  

Lazer é assistir a um show, cuidar de um jardim, ouvir um disco, namorar, bater papo. Lazer é tudo o que não é dever. É uma desopilação. Automaticamente, associamos isso com o prazer: se não estamos trabalhando, estamos nos divertindo. Simplista demais. Em primeiro lugar, podemos ter muito prazer trabalhando, é só redefinir o que é prazer.

O prazer não está em dedicar um tempo programado para o ócio. O prazer é residente. Está dentro de nós, na maneira como a gente se relaciona com o mundo e principalmente com nós mesmos. Chantal Thomas aborda a idéia de que o turismo, hoje, tem sido mais uma imposição cultural do que um prazer. As pessoas aglomeram-se em filas de museus e fazem reservas com meses de antecedência para ir comer no lugar da moda, pouco desfrutando disso tudo. Como ela diz, temos solicitações culturais em demasia. É quase uma obrigação você consumir o que está em evidência. E se é uma obrigação, ainda que ligeiramente inconsciente, não é um prazer.

Complemento dizendo que as pessoas estão fazendo turismo inclusive pelos sentimentos, passando rápido demais pelas experiências amorosas, entre elas o casamento. Queremos provar um pouquinho de tudo, queremos ser felizes mediante uma novidade. O ritmo é determinado pelas tendências de comportamento, que exigem uma apreensão veloz do universo.

O prazer não está em ler uma revista, mas na sensação de estar aprendendo algo. Não está em ver o filme que ganhou o Oscar, mas na emoção que ele pode lhe trazer. Não está em se relacionar superficialmente com  uma pessoa, mas no encontro das almas. Está em tudo que fazemos sem estar atendendo a pedidos ou imposições do mundo e sim aos ditames da alma. Está no silêncio, no espírito. É por isto que meditar, entrar em silêncio das coisas do mundo, abre as portas da alma ao encontro com Deus, a uma felicidade que será sempre renovada!

O prazer está em sentir. Uma obviedade que merece ser resgatada antes que a gente comece a unir o útil com o útil, deixando o agradável pra lá.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Dá um tchauzinho?


Estou no Castros com Diva Ângela , quando chega à nossa mesa um bilhete com um trecho de um poema de Shakespeare, trazido pelo garçom.
Daí um pouco, chega um moço que fala: "meu amigo adora poemas e mandou porque te achou bonita. Você pode dar um tchauzinho para ele?"
Fiz uma cara de "ué", mas no final das contas, dei o tal tchauzinho. Melhor aceitar o primeiro pedido, do que ter que ouvir um segundo...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Meus não-desejos




Não tive coragem de fazer minha carta de desejos de 2012. A de 2011 aconteceu tudo ao contrário com uma dose de extra de provações. Por isso este ano minha lista será dos não-desejos. Quem sabe funciona? Então, aqui vai minha lista pessoal, que ao final de 2012 eu possa ler e observar que nenhum desses fatos ocorreu:

1 – Ser adepta do sedentarismo;
2 – Ler e estudar menos que em 2011;
3 – Estacionar (moralmente, espiritualmente, profissionalmente);
4 – Andar à pé;
5 – Ir ao show do Michel Teló;
6 - Perder tempo com quem não tem futuro;
7 – Visitar meu médico mais vezes ao ano do q em 2011 (essa é foda!);
8 – Se fechar para novas oportunidades e amizades;
9 – Ficar todos os feriados em Goiânia;
10 – O mundo realmente acabar.