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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Prazer é Todo Meu


   Ontem assisti ao filme “O prazer é todo meu”, gostei e recomendo a vocês por dentre outras coisas, ter me trazido boas risadas e algumas reflexões.
   Dirigido por Isabelle Broué, a comédia leve e inteligente (2004) conta a história de Louise (Marie Gillain), uma radialista independente e sexy. Ela namora François (Julien Boisselier), adora sexo e preza muito sua independência neste relacionamento. Recrimina a irmã, Félicie (Garance Clavel), esposa e mãe dedicada que finge ter orgasmos com o marido. Mas quando está prestes a apresentar o namorado aos pais, acontece uma tragédia: ela subitamente deixa de ter prazer no sexo! Não sente mais nada... É o começo de uma busca desesperada e nada irá detê-la na procura pelo prazer perdido.
   Na sua busca, Louise descobre que as pessoas não se sentem à vontade em conversar sobre o assunto, a recriminam com olhares e comentários velados pela sua angústia “fútil” por prazer. Impetuosa, ela aborda o assunto nas situações mais inusitadas e ouve diversas vezes (quase que como um pedido para que encerre o assunto): “Finja ter orgasmos. É uma declaração de amor a seu parceiro”.
   Indignada ela persiste em sua procura passando por sex shops, ginecologista, sexólogo, xamã africano, chás milagrosos e um bar lésbico.

A Iluminação da sexualidade

   O desconforto das pessoas no filme e o medo de tocarem no assunto, me fez lembrar o filósofo Michel Focault. Ele observa que através do tempo, houve um movimento de busca pela “iluminação” da sexualidade. Sendo a carne o móvel do sexo, deveria haver uma maneira a mais santificada possível de suprimir a carne e sublimar desejos. Isso nos colocou num estado de “miséria sexual”.
   Em seus textos sobre a História da Sexualidade, aponta o cristianismo como o aparato social que melhor desenvolveu técnicas para essa tal iluminação da sexualidade, como ferramenta para se alcançar a salvação.
   “A confissão, o exame de consciência, toda uma insistência sobre os segredos e a importância da carne não foram somente um meio de proibir o sexo ou de afastá-lo o mais possível da consciência; foi uma forma de colocar a sexualidade no centro da existência e de ligar a salvação ao domínio de seus movimentos obscuros. O sexo foi aquilo que nas sociedades cristãs, era preciso examinar, vigiar, confessar”(1) .
   Acho muito intrigante e chamo atenção para a miséria sexual. De certa forma, o filme em questão questiona estes valores e condições em nossa sociedade que colocam a mulher em tal situação. Félicie e a mãe de Louise são um claro exemplo disso – elas demoram a descobrir que ter prazer através do sexo lhes é lícito e torna a vida muito mais leve. Tudo isso em função da pressão que a protagonista faz para que a ajudem a resgatar o seu próprio prazer. Louise em contrapartida sofre muito com a incompreensão generalizada.

Miséria Sexual

   No ocidente, em nossas famílias, não se ensina a fazer amor, obter prazer, dar prazer aos outros, maximizar o seu prazer pelo prazer dos outros. Na nossa miséria, temos apenas de um lado a religião dizendo o que não fazer a respeito de sexo e prazer, de outro, a ciência da sexualidade e seus conceitos sobre corpos humanos. Muitos dados e julgamentos a respeito de sexo, sexualidade e relacionamentos. Repasse de vivências genuínas (desprovidas de preconceitos), informação e troca de experiências sem pudor, nem pensar!
   E aí voltamos ao Focault e a mentalidade cristã. O moço coloca que no cristianismo o mérito absoluto é precisamente ser obediente. Manter-se obediente é a condição fundamental de todas as virtudes. Assim, o controle da sexualidade passa a ser instrumento de poder, e caminho para a salvação. Passamos a ter um monte de pré-requisitos para a nossa felicidade que perpassam pelo casamento, a monogamia, o sexo para reprodução, a limitação e desqualificação do prazer (2).
   E quem é que não quer ser salvo? Obter a felicidade eterna? Todos nós! Sem hesitação. Assim, as ovelhinhas, obedecem há séculos seus pastores que dizem o que fazer e como fazer para independente da felicidade presente, alcançar a felicidade futura com muito sofrimento, repressão e limitações.
   E olha que nunca se fez tanto sexo e em tantas modalidades quanto hoje. Mas a questão aqui é qualitativa e não quantitativa. Mesmo com tanta liberdade, vários tabus ainda coexistem (caladinhos) e andam lado a lado com a revolução sexual iniciada pelas mulheres ao final da década de 1960.
   Em 40 e poucos anos de revolução feminina, muito já conquistamos e aprendemos, mas estamos apenas no começo. São séculos de opressão e muita besteira dita a respeito de sexo, prazer e felicidade neste mundo.

Francielle Felipe
_________________________________
1 FOCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.
2________________. Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

2 comentários:

Ana Carolina Carvalho disse...

Antigamente, expor seus problemas sexuais (principalmente a busca pelo prazer), era um sinal de perversão. Hoje, expor os problemas sexuais significa fraqueza. Então, mesmo com a pseudo liberdade sexual,estamos presos à educação cristã e moralista. Ótimo texto!

Nut. Juliana Tolêdo disse...

Este tema á muito polêmico. Ainda nos deparamos com o preconceito alheio, o nosso preconceito e todas as dúvidas e culpas vindas de uma educação ocidental repressora. Se permitirmos sofremos por aqui de misérias várias: sexual, afetiva, familiar... É preciso autoconhecimento, saber o que se quer, o que se precisa, o que se tem e o que se pode dar.